domingo, 31 de julho de 2016

CAPÍTULO X - O JURAMENTO


Também ficou dito que o marido saiu da vitória e caminhou para o coupé, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que ele vinha ter com elas, sorriam de antemão.
— Não lhe digas nada, aconselhou Perpétua.
A cabeça de Santos apareceu logo, com as suíças curtas, o cabelo rente, o bigode rapado. Era homem simpático. Quieto, não ficava mal. A agitação com que chegou, parou e falou, tirou-lhe a gravidade com que ia no carro, as mãos postas sobre o castão de ouro da bengala, e a bengala entre os joelhos.
— Então? então? perguntou.
— Logo digo.
— Mas que foi?
— Logo.
— Bem ou mal? Dize só se bem.
— Bem. Coisas futuras.
— É pessoa séria?
— Séria, sim; até logo, repetiu Natividade estendendo-lhe os dedos.
Mas o marido não podia despegar-se do coupé; queria saber ali mesmo tudo, as perguntas e as respostas, a gente que lá estava à espera, e se era o mesmo destino para os dois, ou se cada um tinha o seu. Nada disso foi escrito como aqui vai, devagar, para que a ruim letra do autor não faça mal à sua prosa. Não, senhor; as palavras de Santos saíram de atropelo, umas sobre outras, embrulhadas, sem princípio ou sem fim. A bela esposa tinha já as orelhas tão afeitas ao falar do marido, mormente em lances de emoção ou curiosidade, que entendia tudo, e ia dizendo que não. A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não teve remédio e despediu-se.
Em caminho, advertiu que, não crendo na cabocla, era ocioso instar pela predição. Era mais; era dar razão à mulher. Prometeu não indagar nada quando voltasse.
Não prometeu esquecer, e daí a teima com que pensou muitas vezes no oráculo. De resto, elas lhe diriam tudo sem que ele perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.
Não concluas daqui que os fregueses do banco padecessem alguma desatenção aos seus negócios. Tudo correu bem, como se ele não tivesse mulher nem filhos ou não houvesse Castelo nem cabocla. Não era só a mão que fazia o seu ofício, assinando; a boca ia falando, mandando, chamando e rindo, se era preciso. Não obstante, a ânsia existia e as figuras passavam e repassavam diante dele; no intervalo de duas letras, Santos resolvia uma coisa ou outra, se não eram ambas a um tempo. Entrando no carro, à tarde, agarrou-se inteiramente ao oráculo. Trazia as mãos sobre o castão, a bengala entre os joelhos, como de manhã, mas vinha pensando no destino dos filhos.
Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos nos berços, as amas ao pé, um pouco admiradas da insistência com que ela os procurava desde manhã. Não era só fitá-los, ou perder os olhos no espaço e no tempo; era beijá-los também e apertá-los ao coração. Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpétua mudou primeiro de roupa que a irmã e foi achá-la diante dos berços, vestida como viera do Castelo.
— Logo vi que você estava com os grandes homens, disse ela.
— Estou, mas não sei em que é que eles serão grandes.
— Seja em que for, vamos almoçar.
Ao almoço e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e da predição. Agora, ao ver entrar o marido, Natividade leu-lhe a dissimulação nos olhos. Quis calar e esperar, mas estava tão ansiosa de lhe dizer tudo, e era tão boa, que resolveu o contrário. Unicamente não teve o tempo de cumpri-lo; antes mesmo de começar, já ele acabava de perguntar o que era. Natividade referiu a subida, a consulta, a resposta e o resto; descreveu a cabocla e o pai.
— Mas então grandes destinos?
— Coisas futuras, repetiu ela.
— Seguramente futuras. Só a pergunta da briga é que não entendo. Brigar por quê? E brigar como? E teriam deveras brigado?
Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestação, confessando que não falou mais deles para o não afligir; naturalmente é o que a outra adivinhou que fosse briga.
— Mas briga por quê?
— Isso não sei, nem creio que fosse nada mau.
— Vou consultar...
— Consultar a quem?
— Uma pessoa.
— Já sei, o seu amigo Plácido.
— Se fosse só amigo não consultava, mas ele é o meu chefe e mestre, tem uma vista clara e comprida, dada pelo Céu... Consulto só por hipótese, não digo os nossos nomes...
— Não! não! não!
— Só por hipótese.
— Não, Agostinho, não fale disto. Não interrogue ninguém a meu respeito, ouviu? Ande, prometa que não falará disto a ninguém, espíritas nem amigos. O melhor é calar. Basta saber que terão sorte feliz. Grandes homens, coisas futuras... Jure, Agostinho.
— Mas você não foi em pessoa à cabocla?
— Não me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, não me tornará a ver. Ande, jure!
— Você é esquisita. Vá lá, prometo. Que tem que falasse, assim, por acaso?
— Não quero. Jure!
— Pois isto é coisa de juramento?
— Sem isso, não confio, disse ela sorrindo.
— Juro.
— Jure por Deus Nosso Senhor!
— Juro por Deus Nosso Senhor!







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