domingo, 31 de julho de 2016

CAPÍTULO PRIMEIRO - COISAS FUTURAS!



Era a primeira vez que as duas iam ao Morro do Castelo. Começaram de subir pelo lado da Rua do Carmo. Muita gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo.
Natividade e Perpétua conheciam outras partes, além de Botafogo, mas o Morro do Castelo, por mais que ouvissem falar dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era-lhes tão estranho e remoto como o clube. O íngreme, o desigual, o mal calçado da ladeira mortificavam os pés às duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como se fosse penitência, devagarinho, cara no chão, véu para baixo. A manhã trazia certo movimento; mulheres, homens, crianças que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados, algum empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados para elas, que aliás vestiam com grande simplicidade; mas há um donaire que se não perde, e não era vulgar naquelas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada à rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: Você quer ver que elas vão à cabocla? E ambos pararam a distância, tomados daquele invencível desejo de conhecer a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.
Com efeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o número da casa da cabocla, até que deram com ele. A casa era como as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita, sombria, adequada à aventura. Quiseram entrar depressa, mas esbarraram com dois sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao portal. Um deles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a adivinha.
— Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito disparate...
— É mentira dele, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito bem onde tem o nariz.
Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras do primeiro eram sinal certo da vidência e da franqueza da adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de Natividade podia ser miserável, e então... Enquanto cogitavam passou fora um carteiro, que as fez subir mais depressa, para escapar a outros olhos. Tinham fé, mas tinham também vexame da opinião, como um devoto que se benzesse às escondidas.
Velho caboclo, pai da adivinha, conduziu as senhoras à sala. Esta era simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mistério ou incutisse pavor, nenhum petrecho simbólico, nenhum bicho empalhado, esqueleto ou desenho de aleijões. Quando muito um registro da Conceição colado à parede podia lembrar um mistério, apesar de encardido e roído, mas não metia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.
— Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se chamam?
Natividade deu o nome de batismo somente, Maria, como um véu mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão, — porque a consulta era só de uma, — com o número 1.012. Não há que pasmar do algarismo; a freguesia era numerosa, e vinha de muitos meses. Também não há que dizer do costume, que é velho e velhíssimo. Relê Ésquilo, meu amigo, relê as Eumênides, lá verás a Pítia, chamando os que iam à consulta: Se há aqui Helenos, venham, aproximem-se, segundo o uso, na ordem marcada pela sorte... A sorte outrora, a numeração agora, tudo é que a verdade se ajuste à prioridade, e ninguém perca a sua vez de audiência. Natividade guardou o bilhete, e ambas foram à janela.
A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpétua menos que Natividade. A aventura parecia audaz, e algum perigo possível. Não ponho aqui os seus gestos; imaginai que eram inquietos e desconcertados. Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um nó na garganta. Felizmente, a cabocla não se demorou muito; ao cabo de três ou quatro minutos, o pai a trouxe pela mão, erguendo a cortina do fundo.
— Entra, Bárbara.
Bárbara entrou, enquanto o pai pegou da viola e passou ao patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma criaturinha leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho de arruda. Já vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistério estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto que não fossem também lúcidos e agudos, e neste último estado eram igualmente compridos; tão compridos e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o coração e tornavam cá fora, prontos para nova entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.
— Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?
— São.
— Cara de um é cara de outro.
— São gêmeos; nasceram há pouco mais de um ano.
— As senhoras podem sentar-se.
Natividade disse baixinho à outra que a cabocla era simpática, não tão baixo que esta não pudesse ouvir também; e daí pode ser que ela, receosa da predição, quisesse aquilo mesmo para obter um bom destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se à mesa redonda que estava no centro da sala, virada para as duas. Pôs os cabelos e os retratos defronte de si. Olhou alternadamente para eles e para a mãe, fez algumas perguntas a esta, e ficou a mirar os retratos e os cabelos, boca aberta, sobrancelhas cerradas. Custa-me dizer que acendeu um cigarro, mas digo, porque é verdade, e o fumo concorda com o ofício. Fora, o pai roçava os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do Norte:
Menina da saia branca, Saltadeira de riacho...
Enquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa. Bárbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabelos em cada mão, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a afetação que porventura aches nesta linha. Tais gestos não se poderiam contar naturalmente. Natividade não tirava os olhos dela, como se quisesse lê-la por dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar se os meninos tinham brigado antes de nascer.
— Brigado?
— Brigado, sim, senhora.
— Antes de nascer?
— Sim, senhora, pergunto se não teriam brigado no ventre de sua mãe; não se
lembra?
Natividade, que não tivera a gestação sossegada, respondeu que efetivamente sentira movimentos extraordinários, repetidos, e dores, e insônias... Mas então que era? Brigariam por quê? A cabocla não respondeu. Ergueu-se pouco depois, e andou à volta da mesa, lenta, como sonâmbula, os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividi-los novamente entre a mãe e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando grosso. Toda ela, cara e braços, ombros e pernas, toda era pouca para arrancar a palavra ao Destino. Enfim, parou, sentou-se exausta, até que se ergueu de salto e foi ter com as duas, tão radiante, os olhos tão vivos e cálidos, que a mãe ficou pendente deles, e não se pôde ter que lhe não pegasse das mãos e lhe perguntasse, ansiosa:
— Então? Diga, posso ouvir tudo.
Bárbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A primeira palavra parece que lhe chegou à boca, mas recolheu-se ao coração, virgem dos lábios dela e de alheios ouvidos. Natividade instou pela resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...
— Coisas futuras! murmurou finalmente a cabocla.
— Mas, coisas feias?
— Oh! não! não! Coisas bonitas, coisas futuras!
— Mas isso não basta; diga-me o resto. Esta senhora é minha irmã e de segredo, mas se é preciso sair, ela sai; eu fico, diga-me a mim só... Serão felizes?
— Sim.
— Serão grandes?
— Serão grandes, oh! grandes! Deus há de dar-lhes muitos benefícios. Eles hão de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua mãe, que tem? Cá fora também se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que lhe digo. Quanto à qualidade da glória, coisas futuras!
Lá dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava a cantiga do sertão:
Trepa-me neste coqueiro, Bota-me os cocos abaixo.
E a filha, não tendo mais que dizer, ou não sabendo que explicar, dava aos quadris
o gesto da toada, que o velho repetia lá dentro:
Menina da saia branca, Saltadeira de riacho, Trepa-me neste coqueiro, Bota-me os cocos abaixo.
Quebra coco, sinhá,
Lá no cocá, Se te dá na cabeça,
Há de rachá; Muito hei de me ri, Muito hei de gostá, Lelê, coco, naiá.







Links:


Sanderlei Silveira (Website)

Conheça seu Estado - História e Geografia

Poesia em Português, Inglês, Espanhol e Francês

Áudio Livro

Livros Online

Obra completa de Machado de Assis

Billboard Hot 100 - Letras de Músicas | Song Lyrics - Songtext - Testo Canzone - Paroles Musique - 歌曲歌词 - 歌詞 - كلمات الاغنية - песни Текст

Educação Infantil - Vídeos, Jogos e Atividades Educativas para crianças de 4 à 11 anos

Língua Portuguesa e Atualidades

Arte e Estética

Santa Catarina - Conheça seu Estado

São Paulo - Conheça seu Estado

Paraná - Conheça seu Estado

Mato Grosso do Sul - Conheça seu Estado

Bíblia Online

O Diário de Anne Frank

Macunaíma - Mário de Andrade

Dom Casmurro - Machado de Assis

Quincas Borba - Machado de Assis

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

Esaú e Jacó - Machado de Assis

Mein Kampf - Adolf Hitler

Cinco Minutos - José de Alencar

O Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

História em 1 Minuto

TOP 10: PDF para Download - Domínio Público


Livros em PDF para Download

Eça de Queiros - Livros em PDF para Download

Jane Austen - Livros em PDF para Download

José de Alencar - Livros em PDF para Download

Machado de Assis - Livros em PDF para Download

Virginia Woolf - Livros em PDF para Download

William Shakespeare - Livros em PDF para Download

Mein Kampf - Adolf Hitler - Download PDF Livro Online

O Alienista - Machado de Assis - PDF Download Livro Online

O Diário de Anne Frank - Download PDF Livro Online

TOP 50:


As festas populares no estado de São Paulo

Assalto - Carlos Drummond de Andrade

Atividades extrativistas do estado de São Paulo - SP

As festas populares no estado do Paraná - PR

Áreas de preservação no estado de São Paulo - SP

Gonçalves Dias - Marabá - Poesia

O tropeirismo no estado do Paraná - PR

Macunaíma - Mário de Andrade - PDF Download Livro Online

Bacias hidrográficas do estado de São Paulo - SP

Atividades extrativistas no Paraná - PR

Os imigrantes no século XIX e XX no estado do Paraná - PR

Atividades extrativistas do Mato Grosso do Sul - MS

As atividades econômicas do estado de São Paulo - SP

As festas populares do estado de Mato Grosso do Sul - MS

Biomas brasileiros - SC

Atividades extrativistas de Santa Catarina - SC

Religião – Idade Antiga (História em 1 Minuto)

A população africana e a escravidão no Paraná - PR

Os imigrantes no estado de Santa Catarina no século XX - SC

Áreas de preservação Ambiental no estado de Santa Catarina - SC

As comunidades quilombolas no Mato Grosso do Sul - MS

O relevo do estado de São Paulo - SP

As atividades econômicas do estado do Paraná - PR

Esaú e Jacó - Machado de Assis - PDF Download Livro Online

Áreas de preservação Ambiental no estado de Mato Grosso do Sul - MS

Memórias Póstumas de Brás Cubas - Capítulo 160 - Das Negativas (Machado de Assis)

Os biomas no estado do Mato Grosso do Sul - MS

A urbanização no estado de São Paulo no início do século XX - SP

A organização do espaço geográfico brasileiro

A poluição do rio Iguaçu (maior rio do Paraná) - PR

Clima e relevo do estado do Paraná - PR

As atividades econômicas no estado de Santa Catarina - SC

Áreas de preservação do estado do Paraná - PR

O Humanitismo - Capítulo 117 - Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

As comunidades quilombolas no estado de Santa Catarina - SC

Vegetação nativa do estado de Santa Catarina - SC

As comunidades quilombolas no estado de São Paulo na atualidade - SP

Os índios Xetá no estado do Paraná - PR

Bacias hidrográficas de Santa Catarina - SC

Rio Iguaçu e sua importancia na historia do Paraná - PR

Machado de Assis - Esaú e Jacó - Capítulo 60 - Manhã de 15

A ocupação e o povoamento do Mato Grosso do Sul - MS

Clima e relevo no estado de Santa Catarina - SC

A formação da cultura de Santa Catarina - SC

Capítulo 17 - Ursa Maior - Mário de Andrade - Macunaíma

Luís Vaz de Camões - Soneto 57 - De Vos me Aparto, oh Vida! Em Tal Mudança

Bacias hidrográficas do Mato Grosso do Sul - MS

Gonçalves Dias - Canção do exílio - Poesia

As comunidades quilombolas no estado do Paraná - PR

A imigração europeia no estado do Paraná - PR

Elizabeth Barrett Browning - Sonnet 43 - How Do I Love Thee?

Biomas brasileiros - PR

Relevo do estado de Mato Grosso do Sul - MS

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas

Luís Vaz de Camões - Soneto 43 - Como Quando do Mar Tempestuoso

A população indígena na região do estado de Santa Catarina - SC

Luís Vaz de Camões - Soneto 45 - Leda Serenidade Deleitosa

Norte Catarinense (Mesorregião) - SC

Outros Links:


Obra completa de Machado de Assis

Machado de Assis - Dom Casmurro

Machado de Assis - Quincas Borba

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas

O Diário de Anne Frank

Educação Infantil

Bíblia Online

História e Geografia

Casa do Sorvete

Sanderlei Silveira

Conheça seu Estado - História e Geografia

Poesia em Português, Inglês, Espanhol e Francês

Santa Catarina - História e Geografia

Paraná - História e Geografia

Mato Grosso do Sul - História e Geografia

São Paulo - História e Geografia

Mário de Andrade - Macunaíma

Adolf Hitler - Mein Kampf

SAP - Treinamentos

Datasul - Tutoriais

Nenhum comentário:

Postar um comentário