sexta-feira, 6 de novembro de 2015

CAPÍTULO LXXIX - FUSÃO, DIFUSÃO, CONFUSÃO...





Machado de Assis - Esaú e Jacó




CAPÍTULO LXXIX - FUSÃO, DIFUSÃO, CONFUSÃO...




Atrás falei das alucinações de Flora. Realmente, eram extraordinárias.
Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os gêmeos separados e sós, cada um no seu coupé, cismou que os ouvia falar; primeira parte da alucinação. Segunda parte: as duas vozes confundiam-se, de tão iguais que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação fez dos dois moços uma pessoa única.
Este fenômeno não creio que possa ser comum. Ao contrário, não faltará quem absolutamente me não creia, e suponha invenção pura o que é verdade puríssima. Ora, é de saber que, durante a comissão do pai, Flora ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz e mesma criatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o fenômeno. Quando ouvia os dois, sem os ver, a imaginação acabava a fusão do ouvido pela da vista, e um só homem lhe dizia palavras extraordinárias.
Tudo isto não é menos extraordinário, concordo. Se eu consultasse o meu gosto, nem os dois rapazes fariam um só mancebo, nem a moça seria uma só donzela. Corrigiria a natureza desdobrando Flora. Não podendo ser assim, consinto na unificação de Pedro e Paulo. Porquanto, esse efeito de visão repetia-se ao pé deles, tal qual na ausência, quando ela se deixava esquecer do lugar, e soltava a rédea a si mesma. Ao piano, à palestra, ao passeio na chácara, à mesa de jantar, tinha dessas visões repentinas e breves, e das quais ela mesma sorria, a princípio.
Se alguém quiser explicar este fenômeno pela lei da hereditariedade, supondo que ele era a forma afetiva da variação política da mãe de Flora, não achará apoio em mim, e creio que em ninguém. São coisas diversas. Conheceis os motivos de D. Cláudia; a filha teria outros que ela própria não sabia. O único ponto de semelhança é que, tanto na mãe como na filha, o fenômeno era agora mais freqüente, mas em relação à primeira vinha do atropelo dos acontecimentos exteriores. Nenhuma revolução se faz como a simples passagem de uma sala a outra; as mesmas revoluções chamadas de palácio trazem alguma agitação que fica por certo prazo, até que a água volte ao nível. D. Cláudia cedia à inquietação dos tempos.
A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se não podia descobrir logo, nem sequer entender. Era um espetáculo misterioso, vago, obscuro, em que as figuras visíveis se faziam impalpáveis, o dobrado ficava único, o único desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma difusão...







Links


Sanderlei Silveira (website)

Obra completa de Machado de Assis (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

sanderlei.com

sanderleisilveira.com.br

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

sz-solution.com

historia1minuto.com.br

Casa do Sorvete - Joinville

Machado de Assis - Obra Completa

Biblia Online

Jogos Online Infantil para Crianças

terça-feira, 3 de novembro de 2015

CAPÍTULO LXXVI - TALVEZ FOSSE A MESMA!



Machado de Assis - Esaú e Jacó



CAPÍTULO LXXVI - TALVEZ FOSSE A MESMA!





Nóbrega saiu enfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma mulher lhe estendia a mão:
— Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!
Nóbrega meteu a mão no bolso do colete e pegou um níquel, entre dois que lá havia, um de tostão, outro de dois. Pegou o primeiro, mas indo a dar-lho, mudou de idéia; não deu o níquel; disse à velha que esperasse, e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu a mão na algibeira das calças e sacou um maço de dinheiro; procurou e achou uma nota de dois mil-réis, não nova, antes velha, tão velha como a mendiga que a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde com a velhice.
— Tome lá, murmurou ele.
Quando a mendiga voltou do espanto, Nóbrega acabava de restituir o maço à algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga então disse veio entremeado de lágrimas:
— Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santíssima...
E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola, mas ele a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não, que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som quase místico, uma espécie de melodia do Céu, um coro de anjos, e fazia bem fitar-lhe os olhos encarquilhados, a mão trêmula, segurando a nota. Nóbrega não esperou que ela se fosse, saiu, desceu a rua, com as bênçãos da mulher atrás de si; dobrou a esquina, a passo rápido, e aí foi pensando não se sabe em quê.
Atravessou a praça, passou a catedral e a Igreja do Carmo, e chegou ao Carceler, onde entregou as botas a um italiano para que lhas engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo, para a direita ou para esquerda, — em todo caso para longe, — e acabou murmurando esta frase, que tanto podia referir-se à nota como à mendiga, mas provavelmente era à nota:
— Talvez fosse a mesma.
Nenhum obséquio, por ínfimo que seja, esquece ao beneficiado. Há exceções. Também há casos em que a memória dos obséquios aflige, persegue e morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra é guardá-los na memória, como as jóias nos seus escrínios; comparação justa, porque o obséquio é muita vez alguma jóia, que o obsequiado esqueceu de restituir.








Links


Sanderlei Silveira (website)

Obra completa de Machado de Assis (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

sanderlei.com

sanderleisilveira.com.br

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

sz-solution.com

historia1minuto.com.br

Casa do Sorvete - Joinville

Machado de Assis - Obra Completa

Biblia Online

Jogos Online Infantil para Crianças

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

CAPÍTULO LXXV - PROVÉRBIO ERRADO




Machado de Assis - Esaú e Jacó


CAPÍTULO LXXV - PROVÉRBIO ERRADO








Pessoa a quem li confidencialmente o capítulo passado, escreve-me dizendo que a causa de tudo foi a cabocla do Castelo. Sem as suas predições grandiosas, a esmola de Natividade seria mínima ou nenhuma, e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. A ocasião faz o ladrão, conclui o meu correspondente.
Não conclui mal. Há todavia alguma injustiça ou esquecimento, porque as razões do gesto do corredor foram todas pias. Além disso, o provérbio pode estar errado. Uma das afirmações de Aires, que também gostava de estudar adágios, é que esse não estava certo.
— Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito.




Links


Sanderlei Silveira (website)

Obra completa de Machado de Assis (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

sanderlei.com

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

sz-solution.com

historia1minuto.com.br

domingo, 1 de novembro de 2015

CAPÍTULO LXXIV - A ALUSÃO DO TEXTO






Machado de Assis - Esaú e Jacó



CAPÍTULO LXXIV - A ALUSÃO DO TEXTO




Antes de continuar, é preciso dizer que o nosso Aires não se referia vagamente ou de modo genérico a algumas pessoas, mas a uma só pessoa particular. Chamava-se então Nóbrega; outrora não se chamava nada, era aquele simples andador das almas que encontrou Natividade e Perpétua na Rua de São José, esquina da Misericórdia. Não esqueceste que a recente mãe deitou uma nota de dois mil-réis à bacia do andador. A nota era nova e bela; passou da bacia à algibeira, no fundo de um corredor, não sem algum combate.
Poucos meses depois, Nóbrega abandonou as almas a si mesmas, e foi a outros purgatórios, para os quais achou outras opas, outras bacias e finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz. Quero dizer que foi a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade, e não se sabe se também o país. Quando tornou, trazia alguns pares de contos de réis, que a fortuna dobrou, redobrou e tresdobrou. Enfim, alvoreceu a famosa quadra do encilhamento. Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande esmola, o grande purgatório. Quem já sabia do andador das almas? A antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Ele era outro; as feições não eram as mesmas, senão as que o tempo lhe veio compondo e melhorando.
Se a grande bacia, ou qualquer das outras recebeu notas que tivessem o destino da primeira, é o que se não sabe, mas é possível. Foi por esse tempo que Aires o viu de carro, quase a sair pela portinhola fora, cumprimentando muito, espiando tudo. Como o cocheiro e o lacaio (creio que eram escoceses) salvassem a dignidade pessoal da casa, Aires fez a observação do fim do outro capítulo, sem nenhuma intenção geral.
Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega tinha medo de tornar ao bairro, onde andara a pedir para as primeiras almas. Um dia, porém, tais foram as saudades dele que pensou em afrontar o perigo e lá foi. Tinha cócegas de mirar as ruas e as pessoas, recordava as casas e as lojas, um barbeiro, os sobrados de grade de pau, onde apareciam tais e tais moças... Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou por outra parte. Só passava de carro; depois quis ver tudo a pé, devagar, parando, se fosse possível, e revivendo o extinto.
Lá se foi a pé; desceu pela Rua de São José, dobrou a da Misericórdia, foi parar à Praia de Santa Luzia, tornou pela Rua de D. Manuel, enfiou de beco em beco. A princípio olhava de esguelha, rápido, os olhos no chão. Aqui via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados de grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas e nenhuma era a mesma. Nóbrega foi-se animando e encarando. Talvez esta velha fosse moça, há vinte anos; a moça talvez mamasse, e dá agora de mamar a outra criança. Nóbrega acabou parando e andando devagar.
Voltou mais vezes. Só as casas, que eram as mesmas, pareciam reconhecê-lo, e algumas quase que lhe falavam. Não é poesia. O ex-andador sentia necessidade de ser conhecido das pedras, ouvir-se admirar delas, contar-lhes a vida, obrigá-las a comparar o modesto de outrora com o garrido de hoje, e escutar-lhes as palavras mudas: Vejam, manas, é ele mesmo. Passava por elas, fitava-as, interrogava-as, quase ria, quase as tocava para sacudi-las com força: Falem, diabos, falem!
Não confiaria de homem aquele passado, mas às paredes mudas, às grades velhas, às portas gretadas, aos lampiões antigos, se os havia ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quisera dar olhos, ouvidos e boca, uma boca que só ele escutasse, e que proclamasse a prosperidade daquele velho andador.
Uma vez, viu a matriz de São José aberta e entrou. A igreja era a mesma; aqui estão os altares, aqui está a solidão, aqui está o silêncio. Persignou-se, mas não orou; olhava só a um lado e outro, andando na direção do altar-mor. Tinha receio de ver aparecer o sacristão, podia ser o mesmo, e conhecê-lo. Ouviu passos, recuou depressa e saiu.
Ao subir pela Rua de São José, encostou-se à parede, para deixar passar uma carroça. A carroça subiu a calçada, ele refugiou-se num corredor. O corredor podia ser qualquer; aquele era o próprio em que ele fez a operação da nota de dois mil-réis de Natividade. Olhou bem, era o mesmo. Ao fundo estavam os três ou quatro degraus da primeira escada que dobrava à esquerda e pegava com a grande. Sorriu do acaso, reviu por um instante aquela manhã, viu no ar a nota de dois mil-réis. Outras lhe teriam vindo às mãos por maneiras assim fáceis, mas nunca lhe esqueceu aquela graciosa folha gravada com tantos símbolos, números, datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe Deus se a própria Santa Rita de Cássia. Era a sua particular devoção. Sem dúvida, trocou a nota e gastou-a, mas as partes dispersas não foram senão levar a outras notas um convite para a algibeira do dono, e todas acudiram a mancheias, obedientes e caladas, para que não as ouvissem crescer.
Por mais que ele olhasse pela vida dentro, não achava igual obséquio do Céu, ou sequer do inferno. Mais tarde, se alguma jóia lhe levou os olhos, não lhe levou as mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou ganhara com que o comprar. A nota de dois mil-réis... Um dia, ousando mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.
Não, leitor, não me apanhas em contradição. Eu bem sei que a princípio o andador das almas atribuiu a nota ao prazer que a dama traria de alguma aventura. Ainda me lembram as palavras dele: Aquelas duas viram passarinho verde! Mas se agora atribuía a nota à proteção da santa, não mentia então nem agora. Era difícil atinar com a verdade. A única verdade certa eram os dois mil-réis. Nem se pode dizer que era a mesma em ambos os tempos. Então, a nota de dois mil-réis equivalia, pelo menos, a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não subia de uma gorjeta de cocheiro.
Também não há contradição em pôr a santa agora e a namorada outrora. Era mais natural o contrário, quando era maior a intimidade dele com a igreja. Mas, leitor dos meus pecados, amava-se muito em 1871, como já se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891 e 1901. O século dirá o resto. E depois, é preciso não esquecer que a opinião do andador das almas acerca de Natividade foi anterior ao gesto do corredor, quando ele agasalhou a nota na algibeira. É duvidoso que, depois do gesto, a opinião fosse a mesma.





Links


Sanderlei Silveira (website)

Obra completa de Machado de Assis (website)

Machado de Assis - Dom Casmurro (Blogger)

Machado de Assis - Memórias Póstumas de Brás Cubas (Blogger)

Machado de Assis - Quincas Borba (Blogger)

Machado de Assis - Esaú e Jacó (Blogger)

Machado de Assis - A Mão e a Luva (Blogger)

Machado de Assis - Papéis Avulsos (Blogger)

Machado de Assis - Helena (Blogger)

Machado de Assis - Outros Livros (Blogger)

Machado de Assis - Poesia (Blogger)

Machado de Assis - Crônica (Blogger)

Machado de Assis - Teatro (Blogger)

sanderlei.com

ssconsult.com.br

ss-solucoes.com

sz-solution.com

historia1minuto.com.br